Alguém chegou em casa ontem à noite carregando, além do cansaço de um dia cheio, um punhado de rosas. Procura daqui, abre armário dali e nada de vaso para colocá-las. Um pote plástico, daqueles de cozinha, foi o que se apresentou no momento. Água fresca, uma poda nas hastes, umas tantas folhas a menos e lá ficaram as flores, muitas ainda em botões cheios de promessa de cor e beleza. Hoje de manhã o pote plástico era invisível sob uma explosão de cores, maciez e perfume. A beleza das flores só se podia comparar com o gesto de quem as deu. Um gesto que aliviou o cansaço de uma sexta feira e coloriu de beleza uma manhã de sábado.
Há tempos a avenida Higienópolis tem sido meu caminho de todas as manhãs em direção ao trabalho. Após percorrer a rua Maria Antonia tomo a Higienópolis do começo até o fim antes de descer uma incrível ladeira cheia de curvas, da qual não guardo o nome, em direção ao bairro do Pacaembú, onde trabalho.
Mas da avenida Higienópolis é que trata este texto. Não propriamente da rua com seus prédios de janelões imensos, nem do mendigo sempre no mesmo ponto com seus dois cachorros impecavelmente trajados com coleiras vermelhas. A Higienópolis tem também uma frequentadora que, como eu, a percorre de manhã. Uma senhora que seguramente já deixou para trás os seus sessenta anos. Alta, magra, sempre vestida com uma calça estampada . As blusas variam, às vezes lisas, às vezes com desenhos, mas a calça, essa sim, sempre estampada. Cabelo quase todo branco, na altura dos ombros, cabelo cheio, pesado, bonito, fazendo contraste com a pele do rosto, morena, aquele moreno de sol, certamente o sol de muitas manhãs caminhando pela avenida.
Na esquina com a avenida Angélica existe um pé de hibisco vermelho que, como tantas flores e pássaros, resiste, sobrevive e floresce em meio à poluição de São Paulo. É ao pé desse hibisco sempre florido que a nossa personagem pára, invariavelmente. Olha para a árvore, estende a mão, separa os galhos cuidadosamente e escolhe uma flor. Com um grampo prende a flor no cabelo, assim meio de lado, não sem antes ajeitar as madeixas em frente a um espelho imaginário. Cabeça feita, ergue o pescoço e segue em frente, como se estivesse indo para uma festa, ou quem sabe, para um encontro com alguém de flor na lapela e chapéu panamá.
Eu sigo meu caminho deixando para trás a mulher de flor no cabelo, que caminha altiva. Amanhã talvez não a encontre, mas daqui a dois, três dias, sei que a verei novamente. A mesma certeza deve ter o pé de hibisco que nunca deixa de produzir flores, como se soubesse que sempre haverá uma dama à procura de uma delas para enfeitar o cabelo.
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