Blog da Lia Pessuto


Terra adorada

Como todo mundo, assisti a pelos menos parte das Olimpíadas de Pequim. Não vi a abertura, apenas flashes no noticiário.  Tudo muito grandioso, imponente, tecnológico. Mas nada que me fizesse esquecer o urso russo chorando no encerramento dos jogos de Moscou.

Bem, mas o assunto não é esse, quero dizer, não são as aberturas olímpicas .

De tudo o que vi, o que mais me impressionou foi a Maurren Maggi no pódio. Medalha de ouro, aplausos merecidos, e o choro. Ah, o choro. Isso sim,  me emocionou. Começa o hino, a nossa Maurren fecha os olhos, canta junto, até chegar ao “terra adorada”.  Nesse ponto ela abaixa a cabeça e chora copiosamente.  Emoção pura, brasilidade, orgulho de ser o que é, de ser quem é.

Sei que os motivos que temos para nos orgulhar de sermos brasileiros são cada dia mais escassos. É triste. Nossos ídolos são movidos, em grande parte, a dinheiro (muito dinheiro),  mansões/carros/barcos nababescos, noitadas, isso até pegarem a estrada da decadência (milionária, é claro).  

Por essas e outras o choro da Maurren me emocionou tanto.  A “terra adorada”  está carente. Carente de filhos amorosos, carente de valores, carente de respeito.  Mas ainda existe uma Maurren que chora, que desaba de emoção... terra adorada, dentre outras mil, és tu Brasil, ó pátria amada...

Obrigada, Maurren.



Escrito por Lia às 12h22
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Um poeta atravessou o meu caminho

 

Mais de 2 anos longe deste blog! Falta de ânimo, preocupações mil,  falta de inspiração, motivos não faltaram. Mas hoje esbarrei num poeta. Ou melhor, fui esbarrada por ele. Quando dei por mim estava com uns poemas na mão esquerda,  enquanto  a direita tentava achar um “café simbólico” (palavras do poeta) na minha bolsa.  Moedas trocaram de mãos, poemas também. Cores, Estradas, Moça, Rochas, Recado, O nome da flor, O sapo. Fui das cores ao sapo engraxado e voltei às estradas de um trem sem trilhos, de passarinhos com trombas e de andarilhos alados.  Bom demais viajar pelos versos do Tony Luiz:

 

Estradas

 

A você, ilustre sabido,

Que interrogou o meu fim,

Digo que não sei saber a vida

Que levam os ladrões e as mendigas;

Mas sei dum trem sem trilhos

Que corrompe alguns caminhos

Pondo trombas em passarinhos

E asas em andarilhos.

 

Antonio Luiz Junior

 



Escrito por Lia às 19h56
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Caldo verde com afeto

 

Não, não é receita. Quer dizer, não é receita de sopa, como o título sugere. Talvez se possa dizer que é receita de algo que alimenta a alma.  Explico: existe um bar na praça Roosevelt que serve umas sopas que são tudo de bom nestas noites de inverno. La Barca é o nome do lugar, freqüentado por atores, diretores, poetas, notívagos em geral, inclusive um Charlie Chaplin que vende botões de rosa.  Eu me apaixonei pelo caldo verde do La Barca. Sei que leva couve, salsinha picada e pedacinhos de bacon. Mas leva também umas  tantas outras coisas que não vêm na receita original, ingredientes que fazem de uma cuia de sopa o alimento perfeito para a alma e o coração numa noite de inverno.  A sopa vem acompanhada do carinho dos meu amigos Célia e Albino, vem acompanhada da alegria daquele pessoal maravilhoso do Satyros, vem acompanhada do altíssimo astral do povo todo que espera a madrugada chegar nas mesas da praça Roosevelt.  Como é bom sorver cada colherada e ao mesmo tempo discutir os destinos do mundo com o meu querido Albino, aprender com a minha doce Célia para que serve o óleo de bétula,  ganhar abraços e beijos dos satyrianos e terminar a noite com  corpo e alma aquecidos pela sopa e pela amizade.

Sou uma privilegiada, afinal de contas. Continuo sem saber a receita do caldo verde, mas conheço o sabor da mistura do prato com o carinho dos amigos que eu tive a sorte de encontrar nesta vida.



Escrito por Lia às 12h32
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Seleção Brasileira (brasileira?)

Depois de tanto tempo ausente,  cá estou eu de volta a este blog. Para falar de Seleção Brasileira, porque de futebol mesmo eu não entendo patavina.

Emergindo do tsunami verde amarelo que inundou o país eu vejo a mim mesma na tentativa de tentar me identificar com esses deuses da bola que nos representam lá na Alemanha. Vêm à minha mente as figuras de Ronaldo, Ronaldinho, Roberto Carlos, Kaká, Dida, Cafú, Robinho e por aí vai.  Atletas que jogam na Europa, recebem em euros, moram em casas de cinema, sabem a diferença entre um Romanée Conti e um Sangue de Boi, namoram modelos que sequer olhariam para um deles se ao invés de jogadores milionários fossem reles entregadores de pizza,  e em comum jogam pelo Brasil na Copa. O que teriam eles em comum com o povão brasileiro, de onde recebem a maior dose de idolatria? Quem,  nesse mar de torcedores, vive em casa com piscina? Quem, nessa multidão,  namora modelo? Quem, no meio desse povo todo, bebe algo diferente de vinho ordinário, cerveja e pinga?   E quem, nessa massa, ganha em euros?

Seleção Brasileira: um punhado de atletas, de primeira linha sem dúvida, vestindo a camisa amarela, cantando (mal) o hino nacional antes do jogo começar, jogando geralmente bem, trazendo títulos com uma certa frequência, enfim, fazendo quase tudo aquilo que se espera deles. Agora, dizer que eles têm a cara do Brasil, não. Isso eles definitivamente não têm.

 



Escrito por Lia às 14h26
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Rosas

Alguém chegou em casa ontem à noite carregando, além do cansaço de um dia cheio, um punhado de rosas. Procura daqui, abre armário dali e nada de vaso para colocá-las. Um pote plástico, daqueles de cozinha, foi o que se apresentou no momento. Água fresca, uma poda nas hastes, umas tantas folhas a menos e lá ficaram as flores, muitas ainda em botões cheios de promessa de cor e beleza. Hoje de manhã o pote plástico era invisível  sob uma explosão de cores, maciez e perfume. A beleza das flores só se podia comparar com o gesto de quem as deu. Um gesto que aliviou o cansaço de uma sexta feira e coloriu de beleza uma manhã de sábado.



Escrito por Lia às 09h17
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Uma flor no cabelo

Há tempos a avenida Higienópolis tem sido meu caminho de todas as manhãs em direção ao trabalho. Após percorrer a rua Maria Antonia tomo a Higienópolis do começo até o  fim antes de descer uma incrível ladeira cheia de curvas, da qual não guardo o nome, em direção ao bairro do Pacaembú, onde trabalho. 

Mas da avenida Higienópolis é que  trata este texto. Não propriamente da rua com seus prédios de janelões imensos,  nem do  mendigo sempre no mesmo ponto com seus dois cachorros impecavelmente trajados com coleiras vermelhas. A Higienópolis tem também uma frequentadora que, como eu, a percorre de manhã.  Uma senhora que seguramente já deixou para trás os seus sessenta anos. Alta, magra, sempre vestida com uma calça estampada . As blusas variam, às vezes lisas, às vezes com  desenhos,  mas a calça, essa sim, sempre estampada.  Cabelo quase todo branco, na altura dos ombros, cabelo cheio, pesado, bonito, fazendo contraste com a pele do rosto, morena, aquele moreno de sol, certamente o sol de muitas manhãs caminhando pela avenida.   

Na esquina com a avenida Angélica existe um pé de hibisco vermelho que, como tantas flores e pássaros, resiste, sobrevive e floresce em meio à poluição de São Paulo. É ao pé desse hibisco sempre florido que a nossa personagem pára, invariavelmente. Olha para a árvore, estende a mão, separa os galhos cuidadosamente e escolhe uma flor.  Com um grampo prende a flor no cabelo, assim meio de lado,  não  sem antes  ajeitar as madeixas em frente a um espelho imaginário. Cabeça feita, ergue o pescoço e segue em frente, como se estivesse indo para uma festa, ou quem sabe, para um encontro com alguém de flor na lapela e chapéu panamá. 

Eu sigo meu caminho deixando para trás a mulher de flor no cabelo, que caminha altiva. Amanhã talvez não a encontre,  mas daqui a dois, três dias, sei que a verei novamente. A mesma certeza deve ter o pé de hibisco que nunca deixa de produzir flores, como se soubesse que sempre haverá uma dama à procura de uma delas para enfeitar o cabelo.

 



Escrito por Lia às 09h09
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Os bancos, seus lucros e os velhinhos

 

A imprensa está propagando os resultados obtidos pelos bancos Bradesco, Itaú e Brasil, os três primeiros da lista, nessa ordem. Números enormes que remetem a comparações do tipo: “quantos salários mínimos, quantas casas populares, quantos hospitais, etc., etc.,  corresponderiam a tais valores”. Vamos fugir do lugar comum e esquecer até mesmo a obscenidade dos juros que propiciam tais ganhos, e focar um outro aspecto da questão.     Afinal, banco não é instituição de caridade, banqueiro não é bonzinho e se o rico sistema financeiro brasileiro permite que proliferem tios Patinhas na categoria, sorte deles e azar nosso.  Mas quando a coisa sai do privado para o público, será que, mesmo com toda a boa vontade do mundo, é possível entender que um banco estatal esteja na lista dos mais lucrativos? E a esses níveis?  Banco público não é para financiar casa própria, escola, pequenos negócios, enfim, projetos que beneficiem o cidadão “dono” do banco?   Aí entram os velhinhos neste artigo. Vêm à minha mente aqueles tiozinhos que aparecem na TV, de cabelos brancos, sorrisos impecáveis e um ar de felicidade de quem está em paz com a vida e com o bolso.  Tudo graças aos empréstimos que são descontados na fonte na hora de receber a aposentadoria. Risco zero para o banco (a não ser que o velhinho morra, e eles estão cada vez mais longevos).  Imagino que os juros e taxas cobrados dessa população de idosos tenham ajudado o Banco do Brasil a alcançar tamanha lucratividade. Afinal, sorte dos velhinhos, que têm o que oferecer ao banco como garantia do dinheiro tomado emprestado. E azar de quem nada tem a oferecer e fica à margem do sistema.  Como estes são  maioria e em grande número, os balanços do Banco do Brasil tendem a engordar, pois o dinheiro não é  gasto com financiamentos de casa própria, hospitais, escolas, etc.  Sei que o assunto é  muito mais abrangente. Mas velhinhos aposentados sorridentes e lucros bancários estatais estelares  são duas coisas tão desconectadas do Brasil real que não dá para resistir à idéia de colocá-los juntos na mesma foto.



Escrito por Lia às 08h57
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Animais

"CHEGARÁ O DIA EM QUE OS HOMENS CONHECERÃO O ÍNTIMO DOS ANIMAIS. NESSE DIA UM CRIME CONTRA QUALQUER DELES SERÁ UM CRIME CONTRA A HUMANIDADE"

Leonardo da Vinci



Escrito por Lia às 14h58
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Bono e Lula

Ontem vi uns trechos do show do U2 na TV. Achei tudo muito bem diagramado, bonito, mesmo não entendendo nada de rock. Estou mais para Beethoven do que para Bono Vox.  Achei o Bono uma simpatia e um político nato. E, como todo bom político, vive num mundo à parte e um tanto quanto desligado da realidade. É claro que não dá para ser contra quando  a TV mostra o celebrado roqueiro em incursões à África ou batalhando por causas como o combate à fome. Mas convenhamos: ir a Brasília visitar o presidente Lula e sair dizendo que o petista é seu ídolo, francamente!  Até dá para entender que um nordestino lá dos grotões ache o Lula o máximo após receber a cesta-esmola de todo mês. Mas o Bono? Será que o cara não lê jornais? Supondo que não os leia, será que ninguém à sua volta ao menos lhe cochichou ao ouvido que o "ídolo" é o comandante de um partido que, de vanguarda esquerdista e arauto da moralidade, mostrou-se um aglomerado de ratazanas vorazes?  Fico com a impressão de que Bono padece da mesma doce blindagem que cerca os poderosos, os famosos  e os endinheirados em geral. Essa gente parece estar sempre cercada de uma vassalagem que só lhe traz boas notícias.  Parece que as más notícias não chegam a eles, talvez resultado daqueles tempos em que os mensageiros que as traziam eram degolados.  Ainda assim, prefiro dar ao Bono o benefício da dúvida, acreditando-o ingênuo, simplesmente.  O roqueiro ainda acredita em sonhos esquerdistas terceiro-mundistas. E nada mais terceiro mundo do que o presidente Lula. Nada mais terceiro  mundo do que atropelar a língua pátria, dizer que não tem a cara da zona sul,  para logo em seguida embarcar num avião de 52 milhões de dólares, acender um charuto cubano e beber Romanée Conti.  E ser ídolo do Bono Vox.

Escrito por Lia às 13h15
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Bichos

Sou louca por bichos. Gosto de todos eles, incluindo aranhas e cobras, menos baratas. Fico morta por dentro cada vez que vejo um cavalo puxando uma carroça ou um cachorro sarnento jogado na rua. Passarinho em gaiola me dói na alma. Ainda mais se for um passarinho que já voou e hoje bate asas e bico contra o arame da gaiola.  Gostaria de ser mais forte em relação aos bichos. Quando se trata deles sou como aquelas pessoas que não podem ver sangue sem desmaiar. Deleto ser ler e-mails que às vezes chegam da Peta ou de qualquer outra ONG protetora dos animais, mostrando focas mortas a pauladas, leões esqueléticos abandonadas por circos ou ursos asiáticos cujos fígados (ou algo assim, nunca tive coragem de ler até o fim) são extraídos sei lá para quê. Tento fazer minha parte ajudando minhocas que se contorcem desidratadas pelo sol  colocando-as no vaso ou floreira mais próximos, às vezes dando meu almoço a cães famintos que encontro a caminho do trabalho, e cobrindo de mimos Júlia e Amanda, as duas gatas que enchem de vida o meu pequeno apartamento.

Ontem fui à feira da praça da República. Estava para sucumbir aos apelos de uma irresistível cocada preta quando vi um homem maltrapilho que segurava no colo um cãozinho bebê e era acompanhado por um cachorro adulto, magro. O trio se aproximou de uma outra barraca de comida. A dona, mulher maravilhosa, preparou um pacote e deu ao homem, não sem antes separar uma generosa fatia de bolo com a recomendação: "o bolo é para o cachorro!".  Eu esqueci a cocada e me concentrei em acompanhar o que aconteceria em seguida. Fui atrás do homem, que parou junto a uma carroça estacionada à beira da calçada. Ele abriu o embrulho, deu algo ao cachorrinho, separou a sua parte e começou a comer. Eu já me preparava para protestar,  quando ele cuidadosamente pôs o pedaço de bolo num prato de papelão e o deu ao cachorro mais velho.  Juro que me deu vontade de aplaudir. Deveria tê-lo feito.  

 



Escrito por Lia às 14h31
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Minha primeira vez

Que título, meu Deus! Melhor explicar: esta é a minha primeira vez num blog. E cá estou eu a pensar numa grande estréia, num texto daqueles de fazer inveja ao Paulo Francis onde quer que ele esteja, ou quem sabe algo assim que faça o Jabor achar que tem uma concorrente séria a partir de agora. Nada disso. Melhor pensar que amanhã tenho um "Elias" à minha espera na Sala São Paulo. Enquanto isso é melhor ir me preparando para encarar uma 25 de Março amanhã cedo, imediatamente antes do Mendelssohn. E por hoje é só.  



Escrito por Lia às 10h09
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